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Um papo sobre chá

Um papo sobre chá

 

Posso te servir um chá?

 

Na verdade, pergunto se você aceita a minha hospitalidade, o meu acolhimento e aconchego. Talvez surja uma conversa, uma troca de experiências ou até mesmo uma amizade.  O chá revelará. É nesse tempo de preparo, quando penso em que tipo seria o ideal, é que tomo consciência do valor que dou a esse encontro. Quero conhecê-lo, ouvi-lo e saber sobre os seus planos. Estou tão contente que escolho um dos meus preferidos e que, se deixar, é o que preparo “dia sim e dia também”.

 

Como te disse, bebo chá todos os dias. Esse chá verde de folhas soltas é adocicado, suave e refrescante. Uma ótima forma de iniciar o dia, fazendo bem à saúde e me deixando mais alerta e focada para trabalhar. Começo, então, a arrumar a nossa bandeja. Coloco o bule maior, ponho a água para esquentar e penso no que vamos comer. Algo que seja leve e que nos deixe bem à vontade para que possamos nos dedicar à conversa com prazer. Onde tem chá, tem alegria e gostosuras para beliscar!

 

Vivi uma infância um tanto solitária em razão de uma certa fragilidade física e, com muita excitação, aguardava a chegada da bandeja em laca preta com um desenho chinês e sobre ela a xícara com chá preto e torradas fresquinhas, saídas do forno com uma leve camada de manteiga absorvida e, às vezes, um pouco de geleia. Vinha sempre à tarde depois de uma soneca febril, me fazia suar em pouco tempo e, com alívio, podia ver o semblante menos preocupado de minha mãe.

 

A partir daí, o chá sempre fez parte da minha vida. Na adolescência, comemorava meus aniversários em casas de chá. Nessa época, aprendi a arrumar uma bonita bandeja, a fazer alguns doces para acompanhar e costumava frequentar as delicatessens procurando por variedade de sabores e marcas. Vivia uma época de abertura de importações no país e produtos nunca vistos por aqui eram vendidos com certa facilidade. O chá acompanhava os trabalhos em grupo, as reuniões com as amigas e o namoro na frente da tv. Em uma das festas de família, coloquei os coloridos pacotinhos de chá importados, de diferentes sabores, em uma grande tigela de vidro na mesa do café e lembro-me de um convidado encher os bolsos de seu casaco pensando que eram chocolates! Depois, revelou que havia ficado frustrado quando chegou em casa, no entanto o equívoco acabou por introduzir o hábito em sua vida.

 

Pronto! Escolhi esse chá porque você, com a sua simpatia, atravessou rapidamente barreiras e se encontra muito perto da minha intimidade, da minha casa e da minha privacidade. Eu, contudo, não me incomodo com essa proximidade. Todos os dias faço a mesma coisa, mas como você está aqui vou pegar uma xícara diferente, a de cerâmica que comprei na viagem à Paraty. Olha como ela é bonita! Para acompanhar, bolo de laranja e pão de queijo! De que precisamos mais nessa vida? O quentinho do chá é um afago no meu coração como se fosse um abraço. Beber o chá é um momento feliz do meu dia!

 

Desculpe, mas hoje não vou te oferecer um serviço daqueles mais elaborados. Ah, as mesas de chá… aquelas produzidas para uma ocasião rara e formal, em que quero ser aceita aos seus olhos, vista como uma pessoa sofisticada, de maneiras finas, educação cuidada e um certo poder. Uma mesa finamente preparada preencherá algum espaço que falta, caso você chegue com grandes expectativas em relação a mim. O chá dessa ocasião não tem erro: você vai gostar! Veio das montanhas mais altas do mundo. Todo processado à mão, possui sabor e aroma únicos. Você conhece? Não, você não conhece.  Nesse instante, querendo ou não, eu coloco um vale entre nós. Por favor, não se afaste. Eu criei o vale, eu construo a ponte. Afinal, percebi a sua curiosidade e o seu bom paladar. Assim, mesmo que você não entenda muito da bebida que estou te oferecendo, estamos juntos, nos conhecendo e exercitando a empatia e generosidade um com o outro. Caso tenha interesse, posso te falar mais sobre ele e te mostrar tantos outros que tenho aqui. Quer ver?

 

Tenho um armário só de chás, de vários países do mundo! Sou uma espécie de colecionadora. Percebo o chá como algo muito valioso e valorizo a sua cultura. Estes verdes são da China e do Japão, os melhores do mundo! O da latinha, que parece uma caixa de joia, é um oolong de Taiwan (não sabe o que é oolong? Aprender com os chás é assim, bem devagar, verdadeiros goles de cultura milenar. Vou te mostrando aos poucos. Tem este preto do Sri Lanka e este outro preto aqui que veio da Índia e é considerado o “champagne” dos chás. Ah, você não vai acreditar, mas o que tenho nas mãos, esta bolacha grande, é um chá fermentado e envelhecido por 15 anos! É um Pu-Erh, da China, e em torno desse tipo de chá, comunidades e mais comunidades se formam nas redes sociais.

 

E, para matar a sua curiosidade, oolong é o chá entre o verde e o preto em relação à oxidação das folhas. São chás complexos e que requerem muita técnica para serem elaborados. Uma mesma porção pode ser infusionada várias vezes, apresentando sabor e aroma diferentes em cada uma. Incrível, não é? O chá tem dessas coisas, vai se acostumando… Cada um tem muita história para contar sobre o local de onde veio, a tradição em que é elaborado, os costumes e o meio social que estão inseridos. Se experimentarmos um chá diferente, diariamente, até o último dia de nossas vidas, ainda assim não conseguiremos conhecer nem metade dos que existem no mundo!

 

E uma bebida tão especial merece os melhores acompanhamentos, não acha? Adoro receber os amigos em casa, é uma das formas que eu encontrei de exercitar a minha amabilidade! Pego a minha porcelana mais fina, aquela francesa antiga que está guardada lá em cima, no armário que pouco abrimos. Lindíssima e delicada como o chá, ela fica perfeita sobre a toalha bordada de linho que a minha mãe trouxe da Itália. Encomendo os mais gostosos doces, sanduichinhos e biscoitos que existem na cidade, feitos por uma chef que estudou na Suíça. Enfeito a mesa com flores frescas e adornos, tudo de acordo com a tradição e a mais rigorosa etiqueta. Sim, há regras para ser uma boa anfitriã!

 

O chá, como o vinho, precisa ser corretamente preparado e harmonizado com a comida que vai ser servida. Você precisa sentir as notas predominantes, se são florais, herbais, salgadas, doces ou remetem ao tostado ou defumado. Um chá complexo é desafiador! Leva-se algum tempo para aprimorar essa percepção sensorial. Algumas famílias já possuem esse conhecimento há gerações e repassam o hábito aos seus filhos desde que nascem. Mas não se intimide, tem muita informação disponível para te ajudar. Saber beber o chá é uma arte!

 

Estamos falando tanto e não comentamos ainda sobre o poder da Camellia sinensis, a verdadeira e única planta do chá. Nunca ouviu falar dela? Com folhas que ficam verdes durante todo o ano, é uma espécie muito resistente a pragas e que se adapta bem em diversos climas e regiões. Influenciadora nata, essa celebridade agrícola atinge milhões de seguidores em sua rede e movimenta bilhões de dólares no mercado. Sim, é para ficar surpreso com esses números, afinal, quase nunca ouvimos falar disso no Brasil.

 

O pouco de chá que agora coloco no bule é feito das folhas mais novas dos arbustos (o broto e as duas primeiras no galho), colhidas à mão, em sua maioria por mulheres que dominam essa técnica por gerações e gerações. Da colheita, são elaborados seis tipos de chás: branco, verde, amarelo, oolong, preto e escuro. Essa planta, com nome e sobrenome, foi descoberta na China há quase cinco mil anos e carrega uma longa, densa e bonita trajetória. E ao falar sobre isso, percebo que preciso te contar sobre o chá precioso.

 

Chamo-o de precioso por ser muito significativo e simbólico. Desde a sua origem, essa bebida deixou de ser apenas um alimento medicinal e recreativo para muitas pessoas. Vou te explicar! Ao longo desses cinco milênios, a Camellia sinensis foi a companheira inseparável das religiões monásticas como o budismo, cristianismo, hinduísmo e islamismo, por apresentar componentes e atributos que estimulam a meditação, forte concentração, silêncio, interiorização, contemplação e serenidade.

 

A preparação do chá é diferente daquela que se faz com a intenção de se alimentar ou entreter. Há um preciosismo em cada etapa, uma atenção plena aos detalhes e, ao se chegar no final de toda a experiência, tem-se uma consciência maior da realidade que nos cerca. É o chá, com toda a sua força histórica e ancestral, servindo de veículo para a evolução espiritual do ser humano. A água, o fogo, o calor, a tigela, o bule, a chaleira, a bandeja…tudo é importante e essencial para uma boa experiência.

 

Você já foi a uma cerimônia do chá? Há vários tipos e mestres que realizam esse tipo de ritual em vários países estudam durante muitos anos e dedicam uma vida toda a refletir e significar cada movimento que é feito, cada objeto que é usado e cada som que é emitido com o objetivo de alcançarem a perfeição. O ambiente é criado para oferecer tranquilidade e silêncio e arrumado com simplicidade, limpeza e beleza. Atualmente, há cerimônias abertas ao público leigo e plantações inteiras são destinadas exclusivamente ao chá de qualidade superior que é usado na ocasião. Nesse período de isolamento devido à pandemia, tenho feito o ritual de meditação com o chá todas as manhãs, ao nascer do sol. Mantenho sempre um caderno para anotar as minhas inspirações. Beber o chá é uma forma de autoconhecimento e conexão espiritual!

 

Nosso papo está tão bom que não percebi o tempo passar. Poderia falar durante horas seguidas sobre a paixão por essa bebida incomparável.  Quer mais uma xícara? Desejo que o seu coração se abra e permita que a camellia cumpra o seu propósito de existir e a sua linda missão: o bem para os seres humanos.  E que você encontre no chá um espaço terno e sensível para os seus encontros com você mesmo e com os outros.

 

Claudia Sant’Anna
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