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Clarice faz 100 anos

Clarice faz 100 anos

Ela não nasceu no Brasil. Ucraniana, naturalizada brasileira e um dos maiores nomes da literatura do século XX, Clarice Lispector conquistou os corações dos leitores brasileiros, principalmente dos cariocas.

Em 2016, a escritora foi homenageada com uma estátua de bronze em tamanho real, em projeto assinado pelo artista plástico Edgar Duvivier. O local escolhido, no Rio, para a homenagem foi o bairro do Leme, onde a escritora viveu durante 12 anos. Clarice sempre lia na mureta próxima ao posto 1, com seu cachorro Ulisses, também retratado na escultura.

Abaixo, a crônica escrita para uma coletânea organizada por Carlos Drummond de Andrade, chamada Elenco de Cronistas Modernos:

CHÁ

“As imaginações que assustam. Pensei numa festa – sem bebida, sem comida, festa só de olhar. Até as cadeiras alugadas e trazidas para um terceiro andar vazio da Rua da Alfândega, este seria um bom lugar. Para essa festa eu convidaria todos os amigos e amigas que tive e não tenho mais. Só eles, sem nem sequer os entre-amigos mútuos. Pessoas que vivi, pessoas que me viveram. Mas como é que se volta da Rua da Alfândega ao anoitecer? As calçadas estariam secas e duras, eu sei.

Preferi outra imaginação. Começou misturando carinho, gratidão, raiva; só depois é que se desdobraram duas asas de morcego, como o que vem de longe e vai chegando muito perto; mas também brilhavam as asas. Seria um chá – domingo, Rua do Lavradio – que eu ofereceria a todas as empregadas que já tive na vida. As que esqueci marcariam a ausência com uma cadeira vazia, assim como estão dentro de mim. As outras sentadas, de mãos cruzadas no colo. Mudas – até o momento em que cada uma abrisse a boca e, rediviva, morta-viva, recitasse o que eu me lembro. Quase um chá de senhoras, só que nesse não se falaria de criadas.

– Pois te desejo muita felicidade – levanta-se uma – desejo que você obtenha tudo o que ninguém pode te dar.

– Quando peço uma coisa – ergue-se outra – só sei falar rindo muito e pensam que não estou precisando.

– Gosto de filme de caçada. (E foi tudo o que me ficou de uma pessoa inteira.)

– Trivial, não, senhora. Só sei fazer comida de pobre.

– Quando eu morrer, umas pessoas vão ter saudade de mim. Mas só isso.

– Fico com os olhos cheios de lágrimas quando falo com a senhora, deve ser espiritismo.

– Era um miúdo tão bonito que até me vinha vontade de fazer-lhe mal.

– Pois hoje de madrugada – me diz a italiana – quando eu vinha para cá, as folhas começaram a cair, e a primeira neve também. Um homem na rua disse assim: “É a chuva de ouro e prata”. Fingi que não ouvi, porque, se não tomo cuidado, os homens fazem de mim o que querem.

– Lá vem a lordeza – levanta-se a mais antiga de todas, aquela que só conseguia dar ternura amarga e nos ensinou tão cedo a perdoar crueldade de amor. – A lordeza dormiu bem? A lordeza é de luxo, é cheia de vontades, ela quer isso, ela quer aquilo. A lordeza é branca.

– Eu queria folga nos três dias de carnaval, madame, porque chega de donzelice.

– Comida é questão de sal. Comida é questão de sal. Comida é questão de sal. Lá vem a lordeza: te desejo que obtenhas tudo o que ninguém pode te dar, só isso quando eu morrer. Foi então que o homem disse que a chuva era de ouro, o que ninguém pode te dar. A menos que tenhas medo de ficar toda de pé no escuro, banhada de ouro, só na escuridão, mas só na escuridão. A lordeza é de luxo pobre: folhas ou a primeira neve. Ter o sal do que se come, não fazer mal ao que é bonito, não rir na hora de pedir e nunca fingir que não se ouviu quando alguém disser: esta, mulher, esta é a chuva de ouro e prata. Sim.”

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